segunda-feira, 30 de agosto de 2010

Antigas histórias de Guaraci



Fotomontagem: Guaraci nos anos 50. Rua Washington Correa da Silva, esquina com a praça municipal.


A vida nessa época era mais simples. Porém, era mais dura e difícil. A iluminação pública era recente na cidade. Não havia muitos recursos, os antibióticos, eram raros. A comunicação por TV era recente. As notícias eram ouvidas através do rádio. A educação escolar findava ainda no primário, até 1957. Toda e qualquer espécie de doença era muito preocupante. As pessoas eram muito pouco informadas e por isso, contavam-se muitos ‘causos’, recheados de mentiras que se espalhavam facilmente.

Note na foto acima que era comum, homens e rapazes usarem ternos durante o dia. Eu nasci em 1952, mas ainda me lembro do Sr. Simpliciano de Lima, sempre vestido de terno branco, impecável, e ele conservou esse hábito por toda sua vida.

Conta-se que:
A fama de ‘Zico da Toreira’ por toda a pequena Guaraci era a de um grande gozador. Mas, era admirado e querido pela população.
Numa manhã de domingo, sentavam-se num banco da praça um grupo de pessoas formando uma rodinha de bate-papo. Ao avistarem de longe o ‘Zico da Toreira’, caminhando no sentido de cruzar a praça, todos olharam, e um deles comentou a oportunidade: - Vamos pregar uma peça nele. Vamos ver qual mentira ele vai nos contar hoje!



Quando Zico se aproximou e viu o grupo de pessoas, já foi logo adiantando:
- Isso não é hora de brincadeira, gente. O caso aqui é muito sério.

- Mas, o que foi Zico? Perguntaram-lhe.

- Tenho que comprar um remédio urgente para o Zé Lima, porque ele está muito mal e corre perigo de vida! E seguiu apressadamente em direção à farmácia, sem dar mais atenção ao grupo.

Como Zé Lima era muito amigo de todos e nessa época havia um medo terrível por doenças, o grupo saiu às pressas, direto para a casa do Lima, pra saber o que estava acontecendo.

Lá chegando, eles se surpreenderam ao ver que o Lima carpia tranquilamente seu quintal, assoviando.

Foi aí então, que um dos integrantes do grupo, olhou para os outros e disse:

- Ora! Pessoal! Vamos concordar, o ‘Zico da Toreira’ mente como ninguém!

terça-feira, 17 de agosto de 2010

Se eu pudesse viver minha vida de novo *Pequenos textos, grandes significados

Poema adaptado de uma prosa de Don Herold, “I‘d Pick More Daisies” (Eu colheria mais margaridas) de 1953.

Don Herold (1889-1966) foi um humorista, escritor, ilustrador e cartunista estadunidense.






Versão 1 (mais lida nos EUA)Quando nos últimos dias de sua vida, Nadine Stair de Louisville, Kentucky, de 85 anos, foi perguntada sobre o que faria se pudesse viver sua vida novamente. Ela disse:

Se pudesse viver minha vida de novo, eu trataria de cometer mais erros na próxima vez. Seria mais relaxada. Seria mais flexível. Seria mais tola do que fui nesta viagem. Não levaria as coisas tão a sério. Correria mais riscos, conheceria mais lugares, escalaria mais montanhas, nadaria em mais rios. Tomaria mais sorvete, comeria menos vagem. Talvez tivesse mais problemas concretos, mas teria menos problemas imaginários. Afinal, fui uma dessas pessoas sensatas e equilibradas, horas e horas, dia após dia.

Tive meus momentos, é claro. Só que se tivesse de fazer tudo de novo, teria mais problemas assim. Na verdade, tentaria não ter outra coisa – apenas mais momentos, um depois do outro, em vez de viver tantos anos à frente de cada dia. Fui uma dessas pessoas que nunca vai à parte alguma sem um termômetro, uma bolsa de água quente, uma capa e um pára-quedas. Se pudesse fazer de novo, levaria menos coisas.

Se pudesse de viver minha vida outra vez, começaria a andar descalça mais cedo na primavera, e continuaria assim pelo outono. Eu iria a mais bailes, andaria mais em carrosséis, e colheria mais margaridas.

Poema atribuído à Nadine Stair
Mas, Nadine Stair e seus descendentes nunca reclamaram por direitos autorais sobre o poema, foram exaustivamente procurados e não encontrados.
Afinal, quem iria colher mais margaridas?
Pequeno histórico da polêmica sobre a autoria deste texto
Em 1975 – a prosa lírica “If I Had My Life to Live Over” (Se eu pudesse viver minha vida de novo) foi publicada pela Associação de Psicologia Humanista no Boletim Informativo de Julho deste ano, nos EUA, e em seguida em outras publicações como ‘The Family Circle’ (1978), e todas citam o texto como que de autoria de uma senhora de 85 anos de Louisville, Kentucky, chamada Nadine Stair. Você pode ver aqui:
http://www.ahpweb.org/pub/newsletter_archives/archive_pdfs/1975/07-75.pdf


Em 1989, esse poema, com pequenas alterações, foi publicado no México pela revista literária Plural (N. º 212, páginas 05/04), com o nome de "Instantes" onde por engano (?) teve sua autoria atribuída a Jorge Luis Borges. A revista Plural, fundada por Octavio Paz, como revista de grande prestígio, espalhou esta versão em espanhol por toda a America Latina, inclusive no Brasil (1995) quando ganha sua versão em português. O escritor gaúcho Moacyr Scliar sente-se parcialmente responsável por sua divulgação aqui dentro, por ter encontrado o texto em Buenos Aires e o publicado em português, no Jornal Zero Hora em Porto Alegre, depois na Folha de São Paulo. Mas, em seguida, fez questão de reproduzir o esclarecimento de Maria Kodama (mulher de Jorge Luis Borges) no jornal. Ela confirmou que o poema não era de Jorge Luis Borges. Veja aqui:
http://www.revista.agulha.nom.br/autoria.html#betty

Versão 2 (mais lida na América Latina)
Se eu pudesse novamente viver a minha vida,
na próxima trataria de cometer mais erros.
Não tentaria ser tão perfeito,
relaxaria mais, seria mais tolo do que tenho sido.

Na verdade, bem poucas coisas - levaria a sério.
Seria menos higiênico. Correria mais riscos,
viajaria mais, contemplaria mais entardeceres,
subiria mais montanhas, nadaria mais rios.
Iria a mais lugares onde nunca fui,
tomaria mais sorvetes e menos lentilha,
teria mais problemas reais e menos problemas imaginários.

Eu fui uma dessas pessoas que viveu sensata
e profundamente cada minuto de sua vida;
claro que tive momentos de alegria.
Mas se eu pudesse voltar a viver trataria somente
de ter bons momentos.

Porque se não sabem, disso é feita a vida, só de momentos;
não percam o agora.
Eu era um daqueles que nunca ia
a parte alguma sem um termômetro,
uma bolsa de água quente, um guarda-chuva e um pára-quedas e,
se voltasse a viver, viajaria mais leve.

Se eu pudesse voltar a viver,
começaria a andar descalço no começo da primavera
e continuaria assim até o fim do outono.
Daria mais voltas na minha rua,
contemplaria mais amanheceres e brincaria com mais crianças,
se tivesse outra vez uma vida pela frente.
Mas, já viram, tenho 85 anos e estou morrendo.

*poema erroneamente atribuído a Jorge Luis Borges


Em 1992, nos EUA, foi publicado o livro, If I Had My Life to Live over I Would Pick More Daisies (Se eu pudesse viver minha vida de novo eu colheria mais margaridas) onde Nadine Stair aparece como autora. Este livro, editado por Sandra Martz, pela editora LYGOR cita o poema como parte das publicações de ‘The Family Circle’, de 1978. O livro é uma coleção de poemas, histórias e fotos. Este livro, por sua popularidade, colaborou muito para estabelecer a aceitação geral de Nadine Stair como autora deste poema. E você ainda pode comprá-lo hoje, no site da Amazon.com, veja:
http://www.amazon.com/Life-Live-over-Would-Daisies/dp/0918949254


A partir de meados da década de 90, com a expansão da net (WWW) esse texto adaptado se espalhou pela rede, caiu no gosto popular, foi pulverizado e é encontrado em milhares de sites e blogs. Foi traduzido em vários idiomas e atribuído a vários outros autores, sofreu várias alterações, o que despertou o interesse pela procura do verdadeiro autor.

Em 2000, um estudo de Benjamin Rossen, pesquisador holandês de plágios, descobre e cita em seu trabalho “Who Would Pick More Daisies?” (Quem Colheria Mais Margaridas?), a autoria de Don Herold (1889-1966), publicado em 1953, pela Revista das Seleções do Reader's Digest, com o título de “I’d Pick More Daisies”. O texto de Don Herold é uma prosa um pouco mais longa e regida por um tom de humor irônico. Passou por algumas pequenas modificações ou para a adaptação a uma prosa poética e começa com a seguinte frase:
“Claro, você não pode ‘desfritar’ um ovo, mas não há nenhuma lei que te proíba de pensar nisso”. (e segue com) Se eu pudesse viver minha vida novamente...
Você pode ver aqui:
http://translate.googleusercontent.com/translate_c?hl=pt-BR&sl=en&u=http://www.livinglifefully.com/flo/floidpickmoredaisies.htm&prev=/search%3Fq%3DDon%2BHerold%2Bor%2Bnadine%2Bstair%26start%3D10%26hl%3Dpt-BR%26sa%3DN%26prmd%3Do&rurl=translate.google.com.br&usg=ALkJrhi7ZZiWlETsCSm8q-xhyMU2R7g4Cg

Veja mais aqui:
http://www.blassoc.com.br/bettyvidigaltextobg.htm


Assim, é considerado que no ano de 1975, alguém decidiu que seria melhor adaptar o texto de Don Herold para uma prosa poética para deixá-lo mais atraente. As autorias podem ter sido inventadas, talvez para sugerir mais autenticidade ao poema. Alguns críticos até desfizeram do poema, mas sua popularidade é incontestável e provada pela enorme quantidade de citações na Net. Vai daí que esse texto é até hoje bastante analisado, comentado e polêmico quanto a sua autoria, alguns até duvidam que tenha sido escrito pela primeira vez por Don Herold em 1953.

Quero colocar aqui uma observação sobre o conteúdo desse texto. Apesar da leveza que o poema arremete o leitor, através de suas palavras inspiradoras e figuras de linguagem, a prudência, é uma qualidade positiva, reconhecida por todos e importante em todas as etapas de nossas vidas. No poema, o centro da sensação de leveza ou de um certo alívio que sua leitura provoca, deve estar mais ligado ao excesso de preocupação produzido pela sociedade moderna, no acúmulo de pressões e por culpas exageradamente aumentadas por um meio de regras confusas e pouco saudáveis. Aliás, os sábios gregos já ensinavam as virtudes de um estado harmonioso (Sophrosyne) na formação de si mesmo: a temperança, a prudência, o bom senso e a moderação, como típicas de um estado de espírito saudável.




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