sexta-feira, 13 de maio de 2011

Links selecionados para ampliar a compreensão do poema “Estudos para uma bailadora andaluza” de João Cabral de Melo Neto

Esta postagem de caráter ilustrativo e educacional traz recursos selecionados de informática que contribuem para ampliar a compreensão dos poemas de João Cabral de Melo Neto que falam da arte flamenca, tema rico em interdisciplinaridade. Escolhi para ilustrar aqui, a primeira parte do poema “Estudos para uma bailadora andaluza” de João Cabral de Melo Neto (1920 -1999), de seu livro Quaderna (p.219), publicado em 1959, sugerindo links de filmes, de imagens e assuntos pertinentes, ilustrando seu pensar poético.

João Cabral de Melo Neto

João Cabral, um dos expoentes da poesia brasileira, é conhecido como o poeta engenheiro das palavras, que constrói seus versos com precisão, palavra sobre palavra, como o engenheiro planeja tijolo sobre tijolo. Chegou à Espanha em 1947 e lá viveu por quatorze anos. De 1947 a 1950, foi vice-cônsul em Barcelona; de 1955 a 1959, trabalhou como pesquisador no Arquivo das Índias, em Sevilha; de 1960 a 1962, como primeiro secretário da Embaixada do Brasil em Madri e de 1967 a 1970, como cônsul geral de Barcelona. O poeta João Cabral se encantou com Sevilha e toda a cultura multifacetada da região da Andaluzia.


O poema “Estudos para uma bailadora andaluza”
O poema “Estudos para uma bailadora andaluza” é composto de 48 quadras divididas simetricamente em 6 partes e é considerado pelos estudiosos de poesia como essencial para a compreensão da poética cabralina. Nele, João Cabral constrói seus versos em quadras fixas, mas segue livre na métrica, na dissonância das rimas, na semântica, na própria extensão da peça, acompanhando algumas características de liberdade poética herdadas do modernismo.

O espaço geográfico da Andaluzia
Andaluzia é uma região localizada ao sul da Espanha, composta por oito províncias (estados), e é também conhecida como berço da arte flamenca.



Desde a antiguidade, pela importância de sua localização geográfica, como o estreito que liga o Mar Mediterrâneo ao oceano Atlântico, o sul da Espanha foi construído por uma grande mistura étnica de povos nativos, fenícios, cartagineses, gregos, celtas, romanos, visigodos, árabes, e outros, como hindus e paquistaneses e entre estes últimos, os (gitanos) ciganos.
Emprestando os últimos três versos do poema Memória de Carlos Drummond de Andrade, que dizem: “Mas as coisas findas, muito mais que lindas, essas ficarão”, pode-se dizer que o que ficou destas raízes, dessa rica miscigenação, falando de costumes e folclore, foi a dança e a música flamenca, ícones desta região na Espanha. A arte flamenca representa e exprime a história, a cultura e o sentimento do povo Andaluz. A capacidade da dança flamenca, de fascinar os olhos humanos, é que encantou o nosso poeta pernambucano João Cabral.

Veja uma interpretação da dança flamenca, por Eva Yerbabuena, nesse vídeo de 3:13 minutos, e note a força e a determinação da expressão corporal da bailadora e seu sapateado acompanhando o ritmo das palmas.
Eva Yerbabuena no Festival Flamenco Patos 2007. Colegio de Médicos de Madrid.


A dança flamenca
Assim como o samba no Brasil e o tango na Argentina, por exemplo, a música e a dança flamenca, são ícones identificadores da Andaluzia e até mesmo da Espanha.

Da wikipedia: “O flamenco é um estilo musical e um tipo de dança fortemente influenciado pela cultura cigana, mas que tem raízes mais profundas na cultura musical mourisca, influência de árabes e judeus. A cultura do flamenco é associada principalmente à Andaluzia na Espanha, e tornou-se um dos ícones da música espanhola e até mesmo da cultura espanhola em geral”. Saiba mais aqui:

http://pt.wikipedia.org/wiki/Flamenco

A região de Andaluzia na Espanha
Do Portal São Francisco: “A Espanha há ficado marcada por uma mistura cultural enriquecida”...Leia mais:
http://www.portalsaofrancisco.com.br/alfa/espanha/historia-da-espanha.php


As Siguiriyas
A palavra siguiriya se refere a um local onde se pratica a arte flamenca, assim como, a um estilo de música/ou canto do flamenco. Veja este recorte do blog espanhol tititranes:
Três “Escolas” e “Núcleos de Germinação” são reconhecidos nas Siguiriyas mais antigas: as que correspondem às comarcas ‘cantadoras’ de “Cadiz y los Puertos”, “Jerez de la Frontera” e ao bairro ‘sevillhano’ de Triana.
Leia mais:
http://tirititranes.blogspot.com/2008/03/siguiriya.html

Declamação do poema
Ouça a declamação da primeira parte deste poema por Moreira Lauro:


Parte I para o poema:
Estudos para uma bailadora andaluza
I
Dir-se-ia, quando aparece
dançando por siguiriyas,
que com a imagem do fogo
inteira se identifica.


Todos os gestos do fogo
que então possui dir-se-ia:
gestos das folhas do fogo,
de seu cabelo, sua língua;


gestos do corpo do fogo,
de sua carne em agonia,
carne de fogo, só nervos,
carne toda em carne viva.


Então, o caráter do fogo
nela também se adivinha:
mesmo gosto dos extremos,
de natureza faminta,


gosto de chegar ao fim
do que dele se aproxima,
gosto de chegar-se ao fim,
de atingir a própria cinza.


Porém a imagem do fogo
é num ponto desmentida:
que o fogo não é capaz
como ela é, nas siguiriyas,


de arrancar-se de si mesmo
numa primeira faísca,
nessa que, quando ela quer,
vem e acende-a fibra a fibra,


que somente ela é capaz
de acender-se estando fria,
de incendiar-se com nada,
de incendiar-se sozinha.


Aproveitando o diálogo intertextual criado pela Professora Mestre e Doutoranda em Letras, Rosana de Castro Mauad, faço uma ilustração deste diálogo, brincando com a imagem do fogo, metáfora proposta por Cabral.


Para aprofundar: Leia uma análise textual do poema, procurando por:
DANÇARINA NOS ESCRITOS DE MALLARMÉ E NA POESIA DE CABRAL
Por: Enéias Farias TAVARES* & Juliana de Abreu T. WERNER**


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