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Olá, sou brasileiro e moro na divisa do Estado de São Paulo com Minas Gerais, exatamente na curva do Rio Grande e numa volta de seu grande lago, na cidade turística de Guaraci de onde escrevo esse Blog. Sou formado em agronomia e nasci em 1952
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terça-feira, 23 de março de 2010

Trechos de uma prosa lírica - Moldura de lembranças












Era uma tarde de um dia calmo de setembro quando atravessei o portão da casa onde ela cresceu. Há mais de 25 anos não passava por ali.

O vento que sopra sem parar carrega as lembranças para o mar do esquecimento. E elas dormem, e como dormem!

Logo que a porta da sala se abriu, fiquei surpreso, como se estivesse de frente para um tempo acabado - mas vivo.

As lembranças, saindo da acomodação do silêncio, procuram luzes na sombra do tempo. Ali naquela sala, elas se guardavam, sutilmente emolduradas e sonolentas.
E eu já podia senti-las, entre a luz e a escuridão.


Rapidamente meus olhos percorreram todo o ambiente. Num segundo, eles reviram tudo: os quatro cantos da sala, o piso, o teto, a luz filtrada pela janela entreaberta, o esvoaçar da cortina... Cada lembrança arremetia à outra. De cada pedaço de saudade, afloravam antigas emoções: alegrias, tristezas incertas, pesares, carinhos e sonhos... Passado e presente num só tempo, tudo tão longe e tão perto.

Incontrolável memória! Basta desatar um nó e pronto: um enxame de recortes do passado cai sem parar...

Imóvel diante de tudo - me senti suspenso na linha tempo. E só coloquei os pés no chão, quando meus olhos pousaram sobre o velho quadro na parede. A tela da queimada. Não era apenas uma arte, mas o lugar comum, de um amor sonhado.




O amor em traços de queimada! Frágil destino. O amarelo fogo consumindo tudo eram estacas em cinzas, fincadas na memória. Ao mergulhar no passado, tudo estava lá, imaculadamente guardado em incríveis semelhanças.

Ela havia sido: venus, rock’in’roll, amor e paixão.
Por um instante, parecia vê-la, na doçura de seu olhar, se desfazendo em sorrisos.



É verdade que as chamas da tela não se apagam, mas os sonhos, ali depositados, se desfizeram em brancas nuvens de fumaça, levadas ao arrepio do vento, para o fundo da escuridão.

De volta ao portão, respirei o azul e o amarelo fogo da tela, e desses ares não restou nenhum instante de dor.

O tempo é curativo! Ele amolece todas as coisas para que possam ser compreendidas no futuro, sem hesitação. O que restou guardado pela hora do destino, foi o sonho abraçado ao perdão.

Certamente, no coração desta tarde, meus olhos acreditaram-se videntes...

Mal se pode agarrar o passado que pousa sobre um instante, que ele logo anuncia - que por ali - apenas passa...

O sonho, as lembranças, o amor, foram chamas que o tempo apagou.
E o vento continua soprando sem parar...



Prosa lírica ficcional - Oscar Mauad – Moldura de lembranças

Este é meu primeiro ‘post’ sobre minhas poesias. Minha intenção foi de criar um texto em prosa lírica curta, fictícia, e composta por uma interposição da narrativa (em negrito) com o eu-lírico (em itálico). Como recurso ficcional de criação lírica, usei de toda liberdade para que o eu-lírico pudesse, cogitar, explicar, responder, completar sentidos - alçando vôos - até mesmo os mais exacerbados.