domingo, 25 de maio de 2014

Paisagismo urbano: a árvore expulsa da praça



Era a árvore certa no lugar certo. Não foi por acaso a escolha do Fícus microcarpa para ornamentar o jardim da praça, no começo do século XX. Bastava um olhar para que as pessoas admirassem sua copa de exuberante vigor. Suas folhas brilhantes refletiam a luz do sol e, pequenas e fartas, conferiam densidade à copa produzindo uma sombra refrescante e ímpar. E a sombra frondosa não era tudo que a árvore oferecia para se destacar num jardim. Apresentava outras qualidades como: pouca queda de folhas, crescimento rápido, além de se reproduzir facilmente por estaquia. Mas, nem só por isso era a árvore certa. Um dos maiores atrativos da espécie era o excelente resultado de sua topiaria. A poda de sua copa possibilitava variados desenhos geométricos, que elevava a beleza dos jardins. Portanto, naquela época, era muito bem recomendada por viveiristas e jardineiros.


Árvores adultas de F. microcarpa podadas em diferentes formas geométricas. Praça _final dos anos 20
O brilho das folhas do F. microcarpa


Dois exemplares de F. microcarpa _geminados por poda




Trabalho de topiaria _em linhas retas _ F. microcarpa



Vinda do continente asiático, essa planta ornamental, que hoje se encontra difundida por todo o globo, principalmente nos países de clima tropical, foi introduzida na cidade do Rio de Janeiro no final do século XIX e, por suas qualidades, fora espalhada, ano a ano, por todo o Brasil.

A primeira referência escrita que se tem sobre a introdução no Brasil da espécie Fícus microcarpa (microcarpa quer dizer: pequenas sementes), reporta-se à reforma dos jardins da Quinta da Boa Vista no Rio de Janeiro, a pedido de D. Pedro II, iniciada por volta de 1869 e executada pelo chamado ‘Paisagista do Império’, o francês Glaziou (Auguste François Marie Glaziou), com a criação dentro desse projeto, do Bosque das Figueiras¹. Glaziou  “[...] introduzia e valorizava diversas espécies nativas ainda pouco conhecidas entre nosso público como também incluía várias “jóias” da botânica internacional [...] (ETZEL, 2011. p. 43)”. Vale dizer, que se deve também a Glaziou, o início da adoção de plantas brasileiras em praças e ruas, destacando-se o oitizeiro ‘Licania tomentosa’, planta que, por acaso, domina hoje as calçadas de Guaraci.


Árvores de fícus com mais de trinta anos _praça em 1947

Jardim da praça _anos 50




Árvores jovens de fícus ao lado e ao fundo da Matriz _topiadas em trapézios _lembrando a forma de um abajur _anos 50


Nos anos 60, as árvores de fícus, já estavam com quase meio século de vida. Pra quem viveu nessa época é bom lembrá-las, além de suas frondosas sombras. Quando recém podadas, era possível admirar a forma que as copas tomavam, ora cilíndricas, ora retangulares, ora em trapézio, lembrando a forma de um abajur; aproximando mais, podia-se conferir a habilidade de topiaria do jardineiro ouvindo o som do corte de sua tesoura junto à escada, diariamente. Era possível ouvir alguém dizendo: nunca tinha visto nada tão bonito enfeitando as praças. Era mesmo muito bom de olhar, a todo o conjunto harmonioso das árvores de arestas bem aparadas dominando a praça, acompanhadas de ciprestes e palmeiras. Quando seus frutos caíam, aquelas bolinhas amarelas quase secas se espalhavam pelo passeio da praça, e propositadamente, os jovens passantes pisavam sobre elas, como brincadeira de criança, somente para ouvir seus estalos ocos e crocantes, uma sensação lúdica inesquecível. É de todo verdade, que não foram momentos, foram anos de convivência pacífica com os fícus, até que chegaram as ‘lacerdinhas’.




As lacerdinhas [adultos (pretos), ninfas (amareladas) e ovos (brancos)] se alojavam no interior das folhas novas dos fícus




Tamanho das lacerdinhas _poucos milímetros


A praga que veio de longe
Um pequeno inseto, com 2 a 3 milímetros de comprimento, conhecido como tripes G. Figorum desembarcou no Brasil, provavelmente em mudas contaminadas, bem no início dos anos 60. E a partir dessa época, foram se proliferando pelos logradouros públicos da cidade portuária do Rio de Janeiro, onde crescia um grande número de árvores adultas de Fícus microcarpa. Ano a ano, a praga foi se alastrando, por onde encontrava seu hospedeiro preferido, de norte a sul do país.

Nessa época, no Rio de Janeiro, o tripes ganhou o apelido de ‘lacerdinha’, uma sátira ao político Carlos Lacerda que então governava o Estado da Guanabara (1960-65) e o apelido pegou. Pegou tanto que popularmente o Fícus microcarpa é hoje conhecido como: árvore-lacerdinha, fícus-lacerdinha ou figueira-lacerdinha. O apelido também é bastante citado na internet, inclusive em sites estrangeiros e até mesmo em livros científicos como nome popular, tanto para planta como para sua praga, o tripes G. Figorum.
Assim se pode ler sobre a lacerdinha: Nome popular de um tripes fitófago, Gnaykothripos Figorum (Marshal), introduzido no Brasil e que causa deformações, enrolamento e queda das folhas do gênero Fícus pela injeção de toxinas. Nas horas quentes do dias, os adultos mostram muita atividade voando em torno da árvore. Protegem-se no interior das folhas, junto com as formas jovens, por ocasião das chuvas e durante a noite. Bibliografia. Gallo, Et al. Manual de Entomologia Agrícola. São Paulo. Editora Ceres. 1988, 649 p.

Começava então, uma luta biológica entre o gigante fícus e seu inimigo e hospedeiro favorito, o pequeno tripes, ávido pra se proliferar.  Uma vez instaladas, as lacerdinhas foram pouco a pouco formando colônias, infestando as folhas novas dos fícus, que uma vez danificadas, caíam comprometendo progressivamente, a saúde das árvores.




Folhas de F. Microcarpa atacadas por lacerdinhas 


A praga e os guaracienses

No final dos anos 60, quem passou sob as copas dos fícus e foi atingido nos olhos por uma lacerdinha, não se esquece. Ardia como pimenta. E o pedido imediato era uma só voz: tira isso, tira isso! Lá, no cantinho do olho! Uma hora de ardência lavando os olhos em água corrente para aliviar a dor. Muitas vezes picavam também a pele das pessoas. Com isso, o simples transitar pela praça já requeria atenção com as árvores atacadas. As lacerdinhas, quase imperceptíveis de tão pequenas, voavam e plainavam por todos os lados de uma planta, ao sabor do vento. Às vezes, se podia antecipar a fuga do local, observando se havia alguma delas presa à roupa. No auge da infestação, até mesmo percorrer as ruas de bicicleta no entorno da praça, merecia cuidado, porque de repente, elas apareciam como nuvens e podiam colar no olho de alguém que por ali, por acaso, passasse.


Enfim, todas as árvores de fícus foram atacadas perdendo sua cor e brilho. A beleza de suas formas aparadas se transformaram num emaranhado de pontas dispersas. A comunidade, não se conformando mais, começou a pedir que derrubassem as árvores da praça pra se livrarem da praga. Não havia outra solução. E assim foi feito, o prefeito tomou a medida certa, e ordenou que literalmente, o mal fosse cortado pela raiz. Sobrou a saudade das velhas árvores de fícus bem aparadas pelo belo trabalho dos nossos habilidosos jardineiros!

De repente, do meio do povo, saiu um grito preso na garganta:
Morte aos malditos fícus! Viva o machado libertador desta praga!

Referências:

¹ Bosque das figueiras _veja no link abaixo, na Página 10

Veja mais sobre ‘O paisagista do Império’, aqui:

Ficus benjamina: ele é um perigo!


Livro: Figueiras no Brasil - Jorge Pedro Pereira Carauta & B. Ernani Diaz - Editora: UFRJ

Ficus microcarpa foi descrito por Carl Linnaeus, o filho, e publicado em Supplementum Plantarum 442. 1781 [1782]. O epíteto latino _microcarpa _significa ‘com pequenas sementes’.

A espécie Ficus microcarpa, tem sinonímias (outros nomes científicos): Ficus aggregata Vahl., Ficus condaravia Buch.-Ham., Ficus littoralis Blume., Urostigma amblyphyllum Miq., Urostigma microcarpum (L. f.) Miq.., entre outros. Além da sinonímia, há também outras variedades de Fícus microcarpa.


Alguns nomes populares do Fícus microcarpa no mundo: Figueira-lacerdinha, Laurel-da-índia, Laurel-de-indias, Baniano-chino, Yucateco, Baniano-malayo,  Laurel-indio , Higuera-cortina.

O F. microcarpa foi muito utilizado na arborização de ruas, praças e em cercas-vivas de antigos palacetes e prédios públicos na primeira metade do século passado na cidade de São Paulo.

O F. microcarpa também é popular entre os entusiastas de bonsai.

Há muitas espécies do gênero Fícus no mundo, algo em torno de 750. No Brasil, há algumas dezenas de plantas nativas do mesmo gênero, porém são desconhecidas da maioria da população. São cultivadas somente as figueiras de valor econômico da espécie Ficus carica (comestíveis), e entre as ornamentais, as mais comuns são as exóticas (de origem asiática): ficus (Ficus benjamina), figueira-lacerdinha (Ficus microcarpa) e a enorme falsa-seringueira (Ficus elastica). Veja mais:

Hoje se pode ler sobre Fícus Microcarpa: Planta difundida por todo o cinturão tropical da Terra como espécie de arborização pública (Mello Filho et al. 1983). É uma das espécies de figueiras mais cultivadas no Brasil e no mundo (Carauta & Diaz 2002).
Mas, também, pode-se ler: uma espécie popular do passado!; e nas orientações de arborização urbana que se espalha por todo o Brasil: proibido o plantio de todas as espécies de Fícus! (aqui mais por razões da agressividade de suas raízes, principalmente pelas espécies Fícus Benjamina e Fícus Elástica, que destroem pavimentos, alicerces, encanamentos, etc.).

 







2 comentários:

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